Análise da obra
Gonçalves Dias publicou o livro
Últimos cantos e deve
ter sido escrito entre 1848 e 1851, e na obra se encontra o poema
I –
Juca Pirama.
I – Juca Pirama é considerada pelos críticos como
um dos mais elaborados poemas do Romantismo brasileiro.
O título do poema é tirado da língua tupi e significa,
conforme explica o próprio autor, “o que há de ser morto,
e que é digno de ser morto.” Embora tenha nome próprio,
“Juca Pirama” não tem nada a ver com o nome do índio
aprisionado pelos Timbiras.
Apesar de ter uma fama narrativa que configura o gênero épico
e um conteúdo dramatizável, predomina no poema o gênero
lírico – um lirismo fácil e espontâneo, perpassado
das emoções e subjetividade do poeta. Como é próprio
do romantismo, estilo a que está ligado Gonçalves Dias, é
um lirismo que brota do coração e da “imaginação
criadora” do poeta e que expressa bem o sentimentalismo romântico.
A obra é indianista e vale ressaltar a musicalidade dos versos que é uma característica
típica de Gonçalves Dias.
O poema
I–Juca Pirama nos dá uma visão mais próxima do índio, ligado
aos seus costumes, idealizado e moldado ao gosto romântico. O índio integrado
no ambiente natural, e principalmente adequado a um sentimento de honra, reflete
o pensamento ocidental de honra tão típico das novelas de cavalaria medievais
- é o caso do texto Rei Arthur e a Távola Redonda. Se os europeus podiam encontrar
na Idade Média as origens da nacionalidade, o mesmo não aconteceu com os brasileiros.
Provavelmente por essa razão, a volta ao passado, mesclada ao culto do bom selvagem,
encontra na figura do indígena o símbolo exato e adequada para a realização
da pesquisa lírica e heróica do passado.
O índio é então redescoberto, embora sua recriação poética dê idéia da redescoberta
de uma raça que estava adormecida pela tradição e que foi revivida pelo poeta.
O idealismo, a etnografia fantasiada , as situações desenvolvidas como episódios
da grande gesta heróica e trágica da civilização indígena brasileira, a qual
sofre a degradação do branco conquistador e colonizador, têm na sua forma e
na sua composição reflexos da epopéia. da tragédia clássica e dos romances de
gesta da Idade Média. Assim o índio que conhecemos nos versos bem elaborados
de Gonçalves Dias é uma figura poética, um símbolo.
Gonçalves Dias centra I – Juca Pirama num estado de coisas que ganham uma enorme
importância pela inevitável transgressão cometida pelo herói, transgressão de
cunho romanesco (o choro diante da morte) que quando transposta a literatura
gera uma incrível idealização dos estados de alma. Como exemplo, podemos citar
as reações causadas pelo "suposto medo da morte". Com isso, o autor transforma
a alma indígena em correlativos dos seus próprios movimentos, sublinhando a
afetividade e o choque entre os afetos: há uma interpenetração de afetos (amor,ódio,
vingança etc.) que estabelece uma harmonia romântica entre o ser que está
sendo julgado e a sua natureza - a natureza indígena, com a consequente preferência
pelas cenas e momentos que correspondem ao teor das emoções. Daí as avalanches
de bravura e de louvor à honra e ao caráter.
Foco narrativo
I – Juca – Pirama é narrado em 3ª pessoa por
um índio timbira que relata às gerações posteriores
as proezas do guerreiro tupi que lá esteve. A posição do
narrador é distante, revelando-se onisciente e onipresente.
O poema descreve, a partir de um “flash-back”, a estória
de um índio tupi que, por ser um bravo e corajoso guerreiro, deveria
ter sua carne comida numa cerimônia religiosa (antropofagia).
Tempo / Ação / espaço
O autor, através do narrador timbira, não faz menção
ao lugar em que decorre a ação; sabe-se, entretanto, que os timbiras
viviam no interior do Brasil, ao contrário dos Tupis, que se localizavam
no litoral.
Quanto ao tempo, não há uma indicação explícita,
mas percebe-se que é a época da colonização portuguesa,
quando os índios já estavam sendo dizimados pelo branco, como
diz, no seu canto de morte, o guerreiro Tupi – um triste remanescente
“
da tribo pujante/ que agora anda errante”.
Personagens
I - Juca Pirama - típico herói romantizado, perfeito,
sem mácula que desperta bons sentimentos no homem burguês leitor.
O velho tupi - simboliza a tradição secular dos
índios tupis. É o pai de I – Juca Pirama.
Os timbiras - índios ferozes e canibais.
O velho timbira - narrador e personagem ocular da estória.
Temática
O índio adequado a um forte sentimento de honra, simboliza a própria
força natural do ameríndio, sua alta cultura acerca de seu povo
representado no modo como este acata o rígido código de ética
de seu povo.
O índio brasileiro é um clone do cavaleiro medieval das novelas
européias românticas como as de Walter Scott.
Estrutura da obra
A metrificação de Gonçalves Dias é bastante original,
pois “menospreza regras de mera convenção”. O poeta
sempre busca a forma ideal para cada assunto, adequando bem forma e conteúdo.
Em
I – Juca – Pirama, alterna versos longos e curtos,
ora para descrever (verso lento), ora para dar a impressão do rufar dos
tambores no ritual indígena.
O poema nos é apresentado em dez cantos, organizados em forma de composição
épico – dramática. Todos sempre pautam pela apresentação
de um índio cujo caráter e heroísmo são salientados
a cada instante.
Canto 1 - Apresentação e descrição
da tribo dos Timbiras. Como está descrevendo o ambiente, o autor usa um
verso mais lento e caudaloso, que é hendecassílabo (onze sílabas).
A estrofe é sempre de seis versos (sextilha) e as rimas obedecem ao esquema:
AA (paralelas) e BCCB (opostas ou intercaladas).
Canto 2 - Narra a festa canibalística dos timbiras e a aflição
do guerreiro tupi que será sacrificado. O poeta alterna o decassílabo (dez
sílabas) com o tetrassílabo (quatro sílabas), o que sugere
o início do ritual com o rufar dos tambores. As estrofes são de
quatro versos (quarteto) e o poeta só rima os tetrassílabos.
Canto 3 - Apresentação do guerreiro tupi – I – Juca Pirama.
Sem se preocupar com rimas e estrofação, o poeta volta a usar o
decassílabo (com algumas irregularidades), novamente num ritmo mais lento,
que se casa bem com a apresentação feita do chefe Timbira.
Canto 4 - I - Juca Pirama aprisionado pelos Timbiras declama
o seu canto de morte e pede ao Timbiras que deixem-no ir para cuidar do pai alquebrado
e cego. O verso pentassílabo (cinco sílabas), num ritmo ligeiro,
dá a impressão do rufar dos tambores. As estrofes com exceção
da primeira (sextilha), têm oito versos (oitavas), e as rimas seguem o esquema
AAA (paralelas) e BCCB (opostas e intercaladas).
Canto 5 - Ao escutarem o canto de morte do guerreiro tupi, os
timbiras entendem ser aquilo um ato de covardia e desse modo desqualificam-no
para o sacrifício. Dando a impressão do conflito que se estabelece e refletindo
o diálogo nervoso, entre o chefe Timbira e o índio Tupi, o poeta
altera o decassílabo com versos mais ou menos livres. Não há
preocupação nem com estrofes nem com rimas.
Canto 6 - O filho volta ao pai que ao pressentir o cheiro de
tinta dos timbiras que é específica para o sacrifício desconfia do filho e ambos
partem novamente para a tribo dos timbiras para sanarem ato tão vergonhoso para
o povo tupi. Reproduzindo o diálogo entre pai e filho e também a
decepção daquele, o poeta usa decassílabo juntamente com
passagens mais ou menos livres. Não há preocupação
com rimas ou estrofes.
Canto 7 - Sob alegação de que os tupis são fracos, o chefe dos
timbiras não permite a consumação do ritual. Num ritmo constante, marcado pelo
heptassílabo (sete sílabas), o poeta reproduz a fala segura do pai
humilhado e do chefe Timbira. A estrofação e as rimas são
livres.
Canto 8 - O pai envergonhado maldiz o suposto filho covarde.
Para expressar a maldição proferida pelo velho pai, num ritmo bem
marcado e seguro, o poeta usa o verso eneassílabo (nove sílabas),
distribuindo-os em oitavas, com rimas alternadas e paralelas.
Canto 9 - Enraivecido o guerreiro tupi lança o seu grito de guerra
e derrota a todos valentemente em nome de sua honra. Casando-se com o tom narrativo
e a reação altiva do índio Tupi, o poeta usa novamente o
decassílabo com estrofação e rimas livres.
Canto 10 - O velho Timbira ( narrador ) rende-se frente ao poder
do tupi e diz a célebre frase: "meninos, eu vi". Alternando o hendecassílabo
com pentassílabo, o poeta fecha o poema, de forma harmoniosa e ordenada,
o que reflete o fim do conflito e a serenidade dos espíritos. Casando com
essa ordem restabelecida, as estrofes vêm arrumadas em sextilhas e as rimas
obedecem ao esquema AA (paralelas) e BCCB (opostas e intercaladas).
Enredo
O poema narra o drama de I-Juca Pirama (
aquele que vai morrer), último
descendente da tribo tupi, que é feito prisioneiro de uma tribo inimiga. Movido
pela amor filial, pois o índio tupi era arrimo de seu pai, velho e cego, I-Juca
Pirama, contrariando a ética do índio, implora ao chefe dos timbiras pela sua
libertação. O chefe timbira a concede, não sem antes humilhar o prisioneiro: "Não
queremos com carne vil enfraquecer os fortes." Solto, o prisioneiro reencontra-se
com seu pai, que percebe que o filho havia sido aprisionado e libertado. Indignado,
o velho exige que ambos se dirijam à tribo timbira, onde o pai amaldiçoa violentamente
o jovem guerreiro que ferido em seus brios, põe-se sozinho a lutar com os timbiras.
Convencido da coragem do tupi, o chefe inimigo pode-lhe que pare a luta, reconhecendo
sua barvura. Pai e filho se abraçam - estava preservada a dignidade dos tupis.