terça-feira, 25 de março de 2014

Obras PAES Unimontes 2014

Literatura: travessias e territorialidades na ficção
1ª Etapa:
• Filme Os Inconfidentes, direção de Joaquim Pedro de Andrade (Brasil/Itália, 1972, 100 minutos) 
• Romanceiro da Inconfidência, Cecília Meireles (qualquer edição) 
• Capitães de Areia, Jorge Amado (qualquer edição) 
• Poema: “Infância”, Carlos Drummond de Andrade
• Música: “Meu Guri”, Chico Buarque de Holanda

2ª Etapa:
• Poemas: “Canção do exílio”, Gonçalves Dias; “Canção do exílio”, Murilo Mendes; “Nova
Canção do exílio”, Carlos Drummond de Andrade; “Canção do exílio facilitada”, José Paulo
Paes; “Lisboa Aventuras”, de José Paulo Paes; “Canção do Exílio”- Casimiro de Abreu;
“Jogos florais I e II”, Antônio Carlos de Brito (Cacaso)
• Música: “Sabiá”, de Antônio Carlos Jobim e Chico Buarque de Holanda
• Contos Escolhidos, Machado de Assis. Editora Martin Claret 
• Casa de Pensão, Aluísio Azevedo (qualquer edição) 
• Quarto de despejo, Carolina Maria de Jesus 

3ª Etapa: 
• Passaporte para a China: crônicas de viagem. Lygia Fagundes Telles. São Paulo: 
Companhia das Letras, 2011 
• Passaporte. Fernando Bonassi. São Paulo: Cosac Naify, 2001 
• Contos: “Felicidade Clandestina”, Clarice Lispector; “A menina de lá” e “Soroco, sua  
mãe, sua filha”, de João Guimarães Rosa (esses últimos integram o livro Primeiras 
estórias. Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira) 
• Filme: A menina que roubava livros 
• Alguma literatura: crônicas. João Caetano Canela 

sexta-feira, 21 de março de 2014

Lira dos vinte anos


Obra mais conhecida do poeta ultrarromântico Álvares de Azevedo, contém criações vinculadas a duas vertentes bem definidas: de um lado, temas sentimentais e abstratos; de outro, a forte presença do sarcasmo e da ironia

Considerado o mais significativo representante da segunda fase do romantismo brasileiro, intitulada ultrarromantismo, ou “geração do mal do século”, e com grande influência dos escritores Lord Byron e Alfred Musset, o poeta Manuel Antônio Álvares de Azevedo produziu intensamente em sua curta vida. Quase toda a sua obra foi publicada postumamente, a partir de 1853.

Em 1942, Homero Pires lançou uma edição final para as obras completas de Álvares de AzevedoLira dos Vinte Anos ocupa lugar relevante, sendo organizada em três partes. A primeira apresenta uma poesia de cunho idealizante, sentimental e abstrato. Na segunda, o poeta envereda pela ironia e pelo sarcasmo. A terceira é um retorno à dicção da primeira. 

ARIEL E CALIBAN As poesias são escritas sob o signo das entidades místicas Ariel e Caliban, que foram tomadas emprestadas da peça A Tempestade, de William Shakespeare. Pode-se dizer que, grosso modo, Ariel representa a face do bem e Caliban, a do mal. Em Lira dos Vinte Anos, esses personagens encarnam as duas facetas exploradas pelo autor na primeira e na segunda partes do livro.

Com Ariel estão os temas caros ao Romantismo, como o amor, a mulher e Deus, trabalhados num viés platônico e sentimental. A mulher assume caráter sobre-humano de virgem angelical, objeto amoroso de um encontro que, para a angústia do eu-lírico, nunca se realiza. Caliban, por sua vez, é a face sarcástica, irônica e autocrítica do fazer poético. Sobressaem os temas da melancolia, da tristeza, da morbidez e de Satã.

A primeira parte recebe uma influência mais idealizada e terna, típica dos franceses Musset e Lamartine; a segunda, irônica e satânica, vem diretamente do poeta Lord Byron. 

BYRON E MUSSET As influências literárias em Álvares de Azevedo têm papel vital em seus trabalhos artísticos. Não apenas como fonte de inspiração, mas como motivos literários propriamente ditos. Essas referências, citadas textualmente, funcionam como se fossem personagens metonímicos do universo poético do eu-lírico, servindo-lhe de companhia nas noites de profundo lirismo. 

Junto do leito meus poetas dormem – O Dante, a Bíblia, Shakespeare e Byron – 

Byron e Musset, no entanto, estão mais presentes no universo de influências do poeta, principalmente o primeiro. As razões estão no caráter lendário que teve a vida de Lord Byron, repleta de aventuras amorosas, e no fato de que o poeta britânico foi o grande modelo de poeta ultrarromântico. Musset, seguidor de Byron em via mais sentimental, é para o poeta brasileiro um meio amenizador do impacto da poesia do primeiro em sua consciência literária. Pode-se dizer que, na primeira parte de Lira dos Vinte Anos, a influência de Byron é regida pelo filtro da leitura de Musset. Daí o tom sentimental e idealizado. É o que se pode perceber nos versos de Anjos do Mar

As ondas são anjos que dormem no mar, 
Que tremem, palpitam, banhados de luz... 
São anjos que dormem, a rir e sonhar 
E em leito d’escuma revolvem-se nus! 

Na segunda parte, é como se Byron estivesse diretamente ligado ao canal criativo do poeta brasileiro. Basta ver o sarcasmo ferino e tétrico do conjunto de poemas. Um exemplo é a trova de O Poeta Moribundo, parte de Spleen e Charutos:

Poetas! amanhã ao meu cadáver Minha tripa cortai mais sonorosa!...
Façam dela uma corda, e cantem nela Os amores da vida esperançosa! 

A OBRA 
Lira dos Vinte Anos é o trabalho mais conhecido de Álvares de Azevedo. A obra contém, na primeira parte, um prefácio geral e uma dedicatória à mãe do poeta. São 33 poemas, que vão de No Mar até Lembrança de Morrer. A segunda parte é formada por 19 poemas, além de um elucidativo prefácio que abre a seção. Os poemas começam por Um Cadáver de Poeta e vão até Minha Desgraça, incluindo a série Spleen e Charutos.

Como foi dito, a terceira parte, com textos que vão de Meu Desejo aPágina Rota, está tematicamente ligada à primeira. A análise dos poemas iniciais se aplica também a essa seção final da obra. 

quinta-feira, 20 de março de 2014

Triste Fim de Policarpo Quaresma


 
O personagem principal é um idealista apaixonado pelo Brasil que vê suas idéias e seu patriotismo ser motivo de chacota e de isolamento, enquanto políticos corruptos e personagens vazios formam a elite do país
Triste Fim de Policarpo Quaresma surgiu como um romance de folhetim em edições semanais, em 1911. Quatro anos depois, foi publicado em um livro. Seu autor, Lima Barreto, era um mulato com idéias socialistas e um estilo de escrever inovador, cuja linguagem simples e direta podia ser compreendida pelo leitor popular.

O meio intelectual da época, que ainda vivia sob forte influência romântica e parnasiana, reagiu chamando o escritor de semianalfabeto, condenando-o à marginalidade e ao ostracismo. Lima Barreto sofreu muito por criticar os poderosos de seu tempo, e suas desilusões não foram poucas. O escritor esteve internado em sanatório, tornou-se alcoólatra e morreu com apenas 41 anos, em estado de completo abandono e de miséria.

QUIXOTE BRASILEIRO
Grande parte da narrativa pode ser sintetizada como o elenco das desilusões do protagonista com o seu país. Policarpo Quaresma é um personagem de má sina, como seu nome indica – “poli”, muito, e “carpo”, choro, sofrimento –, e também o sobrenome “Quaresma”, período de penitências e resguardo que começa no fim do Carnaval e se estende por 40 dias.

Como personagem, Policarpo tem muito de Dom Quixote, pois se cerca de uma visão do sublime que a realidade a sua volta não comporta. É ridicularizado por todos, mas essa zombaria mal esconde a mediocridade de quem ri de suas atitudes e idéias. Entre seus companheiros de romance, Policarpo é o único que tem um ideal maior, que não se deixa levar pelo mundo comezinho e limitado que era a alta sociedade carioca do século XIX.

ENREDO
O livro é dividido em três partes, que correspondem, cada uma, a um dos projetos grandiosos do protagonista.

A primeira parte se passa no Rio de Janeiro, onde Policarpo trabalha como funcionário do Arsenal de Guerra. Ele vive com a irmã, Adelaide, e dedica seu enorme tempo livre ao estudo minucioso sobre o Brasil. É conhecido como Major Quaresma, embora não tenha essa patente militar. Seu patriotismo exagerado é motivo de chacota nas redondezas.

É nessa parte que entra em cena o personagem Ricardo Coração dos Outros, quando Policarpo decide dedicar-se às aulas de violão, instrumento que ele julgava expressão máxima da alma nacional. O costume de tocar violão era visto com maus olhos pela elite da época. O instrumento era considerado sinônimo de boêmia e vadiagem, hábitos que poderiam levar quem os praticasse a passar a noite na cadeia e ainda tomar uma tremenda surra.

Por isso, a zombaria em torno de Policarpo aumenta ainda mais e assume ares maldosos. O protagonista acaba descobrindo que o violão não era genuinamente nacional, tendo sido trazido ao Brasil por estrangeiros europeus, e perde o interesse, puramente patriótico, pelo instrumento.
Por ocasião do noivado de sua filha Ismênia, o general Albernaz realiza uma grande festa em sua mansão. Nesse episódio, Lima Barreto escreve uma grande sátira ao comportamento das elites brasileiras da época. Desfilam, na recepção, vários personagens medíocres, cheios de títulos vazios: contra-almirante Caldas, doutor Florêncio, major Bustamante, Armando. O povo também é satirizado. As figuras populares ficam embasbacadas diante do título de “doutor” de Cavalcanti, o noivo de Ismênia. Essa cena é interrompida quando Genelício, um típico burocrata, dá a todos a notícia de que Policarpo havia sido internado num sanatório.

Após abandonar os estudos musicais, o protagonista começara a aprender o idioma tupi e redigira à Câmara um requerimento em que pedia a adoção do tupi-guarani como idioma oficial da pátria. Em consequência, é ridicularizado de forma estrondosa. Policarpo sente-se atacado por todos os lados. Submetido a enorme pressão, acaba redigindo, por descuido, um ofício em tupi a seu superior, o ministro do Exército, o que resulta em sua dispensa do trabalho. Sozinho e sem auxílio, sofre um colapso mental.

REFLEXÕES AMARGAS A segunda parte se passa no município de Curuzu, onde Policarpo adquire uma propriedade, o sítio Sossego. Os amigos julgam que ele está curado de sua febre patriótica, mas enganam-se. A ida para Curuzu é parte de mais um projeto de salvação da pátria. Policarpo vê, na agricultura, um grande alicerce de crescimento para o país, por isso inicia imediatamente uma frenética pesquisa sobre as espécies da região. Logo percebe, contudo, que o simples manejo de uma enxada é tarefa excessiva para ele. Por isso contrata mais empregados e dá início ao árduo trabalho de cultivo.

Certa noite, Policarpo é acordado por pequenos estalinhos produzidos por milhares de formigas saúvas que estavam roubando todo o seu estoque. As formigas, um inimigo invencível, representam a realidade que começa a mostrar-se ao protagonista: o solo da região não é nenhuma maravilha, inúmeras pragas assolam as plantações e os preços que os intermediários pagam aos produtores é pífio, mal cobrindo as despesas do cultivo.

O convívio social de Policarpo na pequena cidade, que inicialmente se mostrara ótimo, sofre duros abalos. Líderes políticos locais corruptos tentam envolver Policarpo em suas negociatas, sem saber o fanático idealista que tinham diante de si. O protagonista repudia essas tentativas e, com isso, ganha inimigos poderosos. Acusam-no de boêmio, por sua mania de modinhas, e obrigam-no a pagar multas por seus estudos de tupi e do folclore nacional.

Policarpo acaba se revoltando contra a política agrícola nacional. Acredita que seriam necessários reformas e um governo mais forte e sério. A oportunidade para o mais novo reformista surge quando, no Rio de Janeiro, estoura a revolta da esquadra da Marinha. O protagonista oferece seu apoio ao presidente Floriano Peixoto, o “marechal de ferro”, e segue para a capital.

A terceira e última parte do romance tem um viés trágico, já que o personagem caminha para sua completa aniquilação.

Policarpo assume a patente de major – o que lhe custa 400 mil réis – no Exército de Floriano, que é descrito satiricamente pelo escritor como sendo um líder autoritário e grosseiro. Quaresma empenha-se nas batalhas e deixa o sítio Sossego em completo abandono, já que a revolta dura meses. Adelaide troca correspondência assídua com ele, pedindo-lhe reiteradamente que voltasse a Curuzu.

Por uma carta em resposta a Adelaide, o leitor toma conhecimento de que o protagonista fora ferido em combate e se desiludira completamente com a guerra.

A revolta, enfim, é reprimida, e Floriano envia grande parte dos inimigos – principalmente aqueles sem patente – à prisão da Ilha das Cabras. Indignado, Policarpo escreve uma carta ao presidente em que demonstra seu inconformismo. Finalmente, o próprio protagonista é enviado à prisão da Ilha das Cabras. Lá tece uma série de reflexões amargas sobre a pátria. Um final amargo e negativo. Olga e Ricardo Coração dos Outros tentam livrar Quaresma da cadeia por intermédio de antigas amizades, mas é inútil. Policarpo é chamado de “traidor” e espera a morte certa quando o livro se encerra.

Para baixar o livro:
http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/policarpoE.pdf




LIMA BARRETO - Autor da Semana


Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu em 1881 na cidade do Rio de Janeiro. Enfrentou o preconceito por ser mestiço durante a vida. Ficou órfão aos sete anos de idade de mãe e, algum tempo depois, seu pai foi trabalhar como almoxarife em um asilo de loucos chamado Colônia de Alienados da Ilha do Governador.

Concluiu o curso secundário na Escola Politécnica, contudo, teve que abandonar a faculdade de Engenharia, pois seu pai havia sido internado, vítima de loucura, e o autor foi obrigado a arcar com as despesas de casa.

Como leu bastante após a conclusão do segundo grau, sua produção textual era de excelente qualidade, foi então que iniciou sua atividade como jornalista, sendo colaborador da imprensa. Contribuiu para as principais revistas de sua época: Brás Cubas, Fon-Fon, Careta, etc. No entanto, o que o sustentava era o emprego como escrevente na Secretaria de Guerra, onde aposentaria em 1918.

Não foi reconhecido na literatura de sua época, apenas após sua morte. Viveu uma vida boêmia, solitária e entregue à bebida. Quando tornou-se alcoólatra, foi internado duas vezes na Colônia de Alienados na Praia Vermelha, em razão das alucinações que sofria durante seus estados de embriaguez.

Lima Barreto fez de suas experiências pessoais canais de temáticas para seus livros. Em seus livros denunciou a desigualdade social, como em Clara dos Anjos; o racismo sofrido pelos negros e mestiços e também as decisões políticas quanto à Primeira República. Além disso, revelou seus sentimentos quanto ao que sofreu durante suas internações no Hospício Nacional em seu livro O cemitério dos vivos.

Sua principal obra foi Triste fim de Policarpo Quaresma, no qual relata a vida de um funcionário público, nacionalista fanático, representado pela figura de Policarpo Quaresma. Dentre os desejos absurdos desta personagem está o de resolver os problemas do país e o de oficializar o tupi como língua brasileira.

Vejamos um trecho de Triste fim de Policarpo Quaresma:

(...)

“Demais, Senhores Congressistas, o tupi-guarani, língua originalíssima, aglutinante, é verdade, mas a que o polissintetismo dá múltiplas feições de riqueza, é a única capaz de traduzir as nossas belezas, de pôr-nos em relação com a nossa natureza e adaptar-se perfeitamente aos nossos órgãos vocais e cerebrais, por sua criação de povos que aqui viveram e ainda vivem, portanto possuidores da organização fisiológica e psicológica pare que tendemos, evitando-se dessa forma as estéreis controvérsias gramaticais, oriundas de uma difícil adaptação de um língua de outra região à nossa organização cerebral e ao nosso aparelho vocal – controvérsias que tanto empecem o progresso da nossa cultura literária, científica e filosófica.”

(...)

Lima Barreto faleceu no primeiro dia do mês de novembro de 1922, vítima de ataque cardíaco, em razão do alcoolismo.

Obras:
Romance: Recordações do escrivão Isaías Caminha (1909); Triste fim de Policarpo Quaresma (1915); Numa e a ninfa (1915); Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919); Clara dos Anjos (1948).
Sátira: Os bruzundangas (1923); Coisas do Reino do Jambom (1953).
Conto: História e sonhos (1920).