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terça-feira, 1 de abril de 2014

Augusto dos Anjos

 
Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu no Engenho Pau d'Arco, Paraíba, no dia 20 de abril de 1884. Aprendeu com seu pai, bacharel, as primeiras letras. Fez o curso secundário no Liceu Paraibano, já sendo dado como doentio e nervoso por testemunhos da época. De uma família de proprietários de engenhos, assiste, nos primeiros anos do século XX, à decadência da antiga estrutura latifundiária, substituída pelas grandes usinas. Em 1903, matricula-se na Faculdade de Direito do Recife, formando-se em 1907. Ali teve contato com o trabalho "A Poesia Científica", do professor Martins Junior. Formado em direito, não advogou; vivia de ensinar português. Casou-se, em 04 de julho de 1910, com Ester Fialho. Nesse ano, em conseqüência de desentendimento com o governador, é afastado do cargo de professor do Liceu Paraibano. Muda-se para o Rio de Janeiro e dedica-se ao magistério. Lecionou geografia na Escola Normal, depois Instituto de Educação, e no Ginásio Nacional, depois Colégio Pedro II, sem conseguir ser efetivado como professor. Em 1911, morre prematuramente seu primeiro filho. Em fins de 1913 mudou-se para Leopoldina MG, onde assumiu a direção do grupo escolar e continuou a dar aulas particulares. Seu único livro, "Eu", foi publicado em 1912. Surgido em momento de transição, pouco antes da virada modernista de 1922, é bem representativo do espírito sincrético que prevalecia na época, parnasianismo por alguns aspectos e simbolista por outros. Praticamente ignorado a princípio, quer pelo público, quer pela crítica, esse livro que canta a degenerescência da carne e os limites do humano só alcançou novas edições graças ao empenho de Órris Soares (1884-1964), amigo e biógrafo do autor.
Cético em relação às possibilidades do amor ("Não sou capaz de amar mulher alguma, / Nem há mulher talvez capaz de amar-me"), Augusto dos Anjos fez da obsessão com o próprio "eu" o centro do seu pensamento. Não raro, o amor se converte em ódio, as coisas despertam nojo e tudo é egoísmo e angústia em seu livro patético ("Ai! Um urubu pousou na minha sorte"). A vida e suas facetas, para o poeta que aspira à morte e à anulação de sua pessoa, reduzem-se a combinações de elementos químicos, forças obscuras, fatalidades de leis físicas e biológicas, decomposições de moléculas. Tal materialismo, longe de aplacar sua angústia, sedimentou-lhe o amargo pessimismo ("Tome, doutor, essa tesoura e corte / Minha singularíssima pessoa"). Ao asco de volúpia e à inapetência para o prazer contrapõe-se porém um veemente desejo de conhecer outros mundos, outras plagas, onde a força dos instintos não cerceie os vôos da alma ("Quero, arrancado das prisões carnais, / Viver na luz dos astros imortais").
A métrica rígida, a cadência musical, as aliterações e rimas preciosas dos versos fundiram-se ao esdrúxulo vocabulário extraído da área científica para fazer do "Eu" — desde 1919 constantemente reeditado como "Eu e outras poesias" — um livro que sobrevive, antes de tudo, pelo rigor da forma. Com o tempo, Augusto dos Anjos tornou-se um dos poetas mais lidos do país, sobrevivendo às mutações da cultura e a seus diversos modismos como um fenômeno incomum de aceitação popular. Vitimado pela pneumonia aos trinta anos de idade, morreu em Leopoldina em 12 de novembro de 1914.
                Versos Íntimos 
Augusto dos Anjos

        Vês! Ninguém assistiu ao formidável
        Enterro de tua última quimera.
        Somente a Ingratidão - esta pantera -
        Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

quinta-feira, 20 de março de 2014

Triste Fim de Policarpo Quaresma


 
O personagem principal é um idealista apaixonado pelo Brasil que vê suas idéias e seu patriotismo ser motivo de chacota e de isolamento, enquanto políticos corruptos e personagens vazios formam a elite do país
Triste Fim de Policarpo Quaresma surgiu como um romance de folhetim em edições semanais, em 1911. Quatro anos depois, foi publicado em um livro. Seu autor, Lima Barreto, era um mulato com idéias socialistas e um estilo de escrever inovador, cuja linguagem simples e direta podia ser compreendida pelo leitor popular.

O meio intelectual da época, que ainda vivia sob forte influência romântica e parnasiana, reagiu chamando o escritor de semianalfabeto, condenando-o à marginalidade e ao ostracismo. Lima Barreto sofreu muito por criticar os poderosos de seu tempo, e suas desilusões não foram poucas. O escritor esteve internado em sanatório, tornou-se alcoólatra e morreu com apenas 41 anos, em estado de completo abandono e de miséria.

QUIXOTE BRASILEIRO
Grande parte da narrativa pode ser sintetizada como o elenco das desilusões do protagonista com o seu país. Policarpo Quaresma é um personagem de má sina, como seu nome indica – “poli”, muito, e “carpo”, choro, sofrimento –, e também o sobrenome “Quaresma”, período de penitências e resguardo que começa no fim do Carnaval e se estende por 40 dias.

Como personagem, Policarpo tem muito de Dom Quixote, pois se cerca de uma visão do sublime que a realidade a sua volta não comporta. É ridicularizado por todos, mas essa zombaria mal esconde a mediocridade de quem ri de suas atitudes e idéias. Entre seus companheiros de romance, Policarpo é o único que tem um ideal maior, que não se deixa levar pelo mundo comezinho e limitado que era a alta sociedade carioca do século XIX.

ENREDO
O livro é dividido em três partes, que correspondem, cada uma, a um dos projetos grandiosos do protagonista.

A primeira parte se passa no Rio de Janeiro, onde Policarpo trabalha como funcionário do Arsenal de Guerra. Ele vive com a irmã, Adelaide, e dedica seu enorme tempo livre ao estudo minucioso sobre o Brasil. É conhecido como Major Quaresma, embora não tenha essa patente militar. Seu patriotismo exagerado é motivo de chacota nas redondezas.

É nessa parte que entra em cena o personagem Ricardo Coração dos Outros, quando Policarpo decide dedicar-se às aulas de violão, instrumento que ele julgava expressão máxima da alma nacional. O costume de tocar violão era visto com maus olhos pela elite da época. O instrumento era considerado sinônimo de boêmia e vadiagem, hábitos que poderiam levar quem os praticasse a passar a noite na cadeia e ainda tomar uma tremenda surra.

Por isso, a zombaria em torno de Policarpo aumenta ainda mais e assume ares maldosos. O protagonista acaba descobrindo que o violão não era genuinamente nacional, tendo sido trazido ao Brasil por estrangeiros europeus, e perde o interesse, puramente patriótico, pelo instrumento.
Por ocasião do noivado de sua filha Ismênia, o general Albernaz realiza uma grande festa em sua mansão. Nesse episódio, Lima Barreto escreve uma grande sátira ao comportamento das elites brasileiras da época. Desfilam, na recepção, vários personagens medíocres, cheios de títulos vazios: contra-almirante Caldas, doutor Florêncio, major Bustamante, Armando. O povo também é satirizado. As figuras populares ficam embasbacadas diante do título de “doutor” de Cavalcanti, o noivo de Ismênia. Essa cena é interrompida quando Genelício, um típico burocrata, dá a todos a notícia de que Policarpo havia sido internado num sanatório.

Após abandonar os estudos musicais, o protagonista começara a aprender o idioma tupi e redigira à Câmara um requerimento em que pedia a adoção do tupi-guarani como idioma oficial da pátria. Em consequência, é ridicularizado de forma estrondosa. Policarpo sente-se atacado por todos os lados. Submetido a enorme pressão, acaba redigindo, por descuido, um ofício em tupi a seu superior, o ministro do Exército, o que resulta em sua dispensa do trabalho. Sozinho e sem auxílio, sofre um colapso mental.

REFLEXÕES AMARGAS A segunda parte se passa no município de Curuzu, onde Policarpo adquire uma propriedade, o sítio Sossego. Os amigos julgam que ele está curado de sua febre patriótica, mas enganam-se. A ida para Curuzu é parte de mais um projeto de salvação da pátria. Policarpo vê, na agricultura, um grande alicerce de crescimento para o país, por isso inicia imediatamente uma frenética pesquisa sobre as espécies da região. Logo percebe, contudo, que o simples manejo de uma enxada é tarefa excessiva para ele. Por isso contrata mais empregados e dá início ao árduo trabalho de cultivo.

Certa noite, Policarpo é acordado por pequenos estalinhos produzidos por milhares de formigas saúvas que estavam roubando todo o seu estoque. As formigas, um inimigo invencível, representam a realidade que começa a mostrar-se ao protagonista: o solo da região não é nenhuma maravilha, inúmeras pragas assolam as plantações e os preços que os intermediários pagam aos produtores é pífio, mal cobrindo as despesas do cultivo.

O convívio social de Policarpo na pequena cidade, que inicialmente se mostrara ótimo, sofre duros abalos. Líderes políticos locais corruptos tentam envolver Policarpo em suas negociatas, sem saber o fanático idealista que tinham diante de si. O protagonista repudia essas tentativas e, com isso, ganha inimigos poderosos. Acusam-no de boêmio, por sua mania de modinhas, e obrigam-no a pagar multas por seus estudos de tupi e do folclore nacional.

Policarpo acaba se revoltando contra a política agrícola nacional. Acredita que seriam necessários reformas e um governo mais forte e sério. A oportunidade para o mais novo reformista surge quando, no Rio de Janeiro, estoura a revolta da esquadra da Marinha. O protagonista oferece seu apoio ao presidente Floriano Peixoto, o “marechal de ferro”, e segue para a capital.

A terceira e última parte do romance tem um viés trágico, já que o personagem caminha para sua completa aniquilação.

Policarpo assume a patente de major – o que lhe custa 400 mil réis – no Exército de Floriano, que é descrito satiricamente pelo escritor como sendo um líder autoritário e grosseiro. Quaresma empenha-se nas batalhas e deixa o sítio Sossego em completo abandono, já que a revolta dura meses. Adelaide troca correspondência assídua com ele, pedindo-lhe reiteradamente que voltasse a Curuzu.

Por uma carta em resposta a Adelaide, o leitor toma conhecimento de que o protagonista fora ferido em combate e se desiludira completamente com a guerra.

A revolta, enfim, é reprimida, e Floriano envia grande parte dos inimigos – principalmente aqueles sem patente – à prisão da Ilha das Cabras. Indignado, Policarpo escreve uma carta ao presidente em que demonstra seu inconformismo. Finalmente, o próprio protagonista é enviado à prisão da Ilha das Cabras. Lá tece uma série de reflexões amargas sobre a pátria. Um final amargo e negativo. Olga e Ricardo Coração dos Outros tentam livrar Quaresma da cadeia por intermédio de antigas amizades, mas é inútil. Policarpo é chamado de “traidor” e espera a morte certa quando o livro se encerra.

Para baixar o livro:
http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/policarpoE.pdf




sexta-feira, 14 de março de 2014

Juca Pirama - Gonçalves Dias

 I-Juca-Pirama - Antônio Gonçalves Dias
Análise da obra

Gonçalves Dias publicou o livro Últimos cantos e deve ter sido escrito entre 1848 e 1851, e na obra se encontra o poema I – Juca Pirama.

I – Juca Pirama é considerada pelos críticos como um dos mais elaborados poemas do Romantismo brasileiro.

O título do poema é tirado da língua tupi e significa, conforme explica o próprio autor, “o que há de ser morto, e que é digno de ser morto.” Embora tenha nome próprio, “Juca Pirama” não tem nada a ver com o nome do índio aprisionado pelos Timbiras.

Apesar de ter uma fama narrativa que configura o gênero épico e um conteúdo dramatizável, predomina no poema o gênero lírico – um lirismo fácil e espontâneo, perpassado das emoções e subjetividade do poeta. Como é próprio do romantismo, estilo a que está ligado Gonçalves Dias, é um lirismo que brota do coração e da “imaginação criadora” do poeta e que expressa bem o sentimentalismo romântico. A obra é indianista e vale ressaltar a musicalidade dos versos que é uma característica típica de Gonçalves Dias.

O poema I–Juca Pirama nos dá uma visão mais próxima do índio, ligado aos seus costumes, idealizado e moldado ao gosto romântico. O índio integrado no ambiente natural, e principalmente adequado a um sentimento de honra, reflete o pensamento ocidental de honra tão típico das novelas de cavalaria medievais - é o caso do texto Rei Arthur e a Távola Redonda. Se os europeus podiam encontrar na Idade Média as origens da nacionalidade, o mesmo não aconteceu com os brasileiros. Provavelmente por essa razão, a volta ao passado, mesclada ao culto do bom selvagem, encontra na figura do indígena o símbolo exato e adequada para a realização da pesquisa lírica e heróica do passado.

O índio é então redescoberto, embora sua recriação poética dê idéia da redescoberta de uma raça que estava adormecida pela tradição e que foi revivida pelo poeta. O idealismo, a etnografia fantasiada , as situações desenvolvidas como episódios da grande gesta heróica e trágica da civilização indígena brasileira, a qual sofre a degradação do branco conquistador e colonizador, têm na sua forma e na sua composição reflexos da epopéia. da tragédia clássica e dos romances de gesta da Idade Média. Assim o índio que conhecemos nos versos bem elaborados de Gonçalves Dias é uma figura poética, um símbolo.

Gonçalves Dias centra I – Juca Pirama num estado de coisas que ganham uma enorme importância pela inevitável transgressão cometida pelo herói, transgressão de cunho romanesco (o choro diante da morte) que quando transposta a literatura gera uma incrível idealização dos estados de alma. Como exemplo, podemos citar as reações causadas pelo "suposto medo da morte". Com isso, o autor transforma a alma indígena em correlativos dos seus próprios movimentos, sublinhando a afetividade e o choque entre os afetos: há uma interpenetração de afetos (amor,ódio, vingança etc.) que estabelece uma harmonia romântica entre o ser que está sendo julgado e a sua natureza - a natureza indígena, com a consequente preferência pelas cenas e momentos que correspondem ao teor das emoções. Daí as avalanches de bravura e de louvor à honra e ao caráter.

Foco narrativo

I – Juca – Pirama é narrado em 3ª pessoa por um índio timbira que relata às gerações posteriores as proezas do guerreiro tupi que lá esteve. A posição do narrador é distante, revelando-se onisciente e onipresente.

O poema descreve, a partir de um “flash-back”, a estória de um índio tupi que, por ser um bravo e corajoso guerreiro, deveria ter sua carne comida numa cerimônia religiosa (antropofagia).

Tempo / Ação / espaço

O autor, através do narrador timbira, não faz menção ao lugar em que decorre a ação; sabe-se, entretanto, que os timbiras viviam no interior do Brasil, ao contrário dos Tupis, que se localizavam no litoral.

Quanto ao tempo, não há uma indicação explícita, mas percebe-se que é a época da colonização portuguesa, quando os índios já estavam sendo dizimados pelo branco, como diz, no seu canto de morte, o guerreiro Tupi – um triste remanescente “da tribo pujante/ que agora anda errante”.

Personagens

I - Juca Pirama - típico herói romantizado, perfeito, sem mácula que desperta bons sentimentos no homem burguês leitor.

O velho tupi - simboliza a tradição secular dos índios tupis. É o pai de I – Juca Pirama.

Os timbiras - índios ferozes e canibais.

O velho timbira - narrador e personagem ocular da estória.

Temática

O índio adequado a um forte sentimento de honra, simboliza a própria força natural do ameríndio, sua alta cultura acerca de seu povo representado no modo como este acata o rígido código de ética de seu povo.

O índio brasileiro é um clone do cavaleiro medieval das novelas européias românticas como as de Walter Scott.

Estrutura da obra

A metrificação de Gonçalves Dias é bastante original, pois “menospreza regras de mera convenção”. O poeta sempre busca a forma ideal para cada assunto, adequando bem forma e conteúdo.

Em I – Juca – Pirama, alterna versos longos e curtos, ora para descrever (verso lento), ora para dar a impressão do rufar dos tambores no ritual indígena.

O poema nos é apresentado em dez cantos, organizados em forma de composição épico – dramática. Todos sempre pautam pela apresentação de um índio cujo caráter e heroísmo são salientados a cada instante.

Canto 1 - Apresentação e descrição da tribo dos Timbiras. Como está descrevendo o ambiente, o autor usa um verso mais lento e caudaloso, que é hendecassílabo (onze sílabas). A estrofe é sempre de seis versos (sextilha) e as rimas obedecem ao esquema: AA (paralelas) e BCCB (opostas ou intercaladas).

Canto 2 - Narra a festa canibalística dos timbiras e a aflição do guerreiro tupi que será sacrificado. O poeta alterna o decassílabo (dez sílabas) com o tetrassílabo (quatro sílabas), o que sugere o início do ritual com o rufar dos tambores. As estrofes são de quatro versos (quarteto) e o poeta só rima os tetrassílabos.

Canto 3 - Apresentação do guerreiro tupi – I – Juca Pirama. Sem se preocupar com rimas e estrofação, o poeta volta a usar o decassílabo (com algumas irregularidades), novamente num ritmo mais lento, que se casa bem com a apresentação feita do chefe Timbira.

Canto 4 - I - Juca Pirama aprisionado pelos Timbiras declama o seu canto de morte e pede ao Timbiras que deixem-no ir para cuidar do pai alquebrado e cego. O verso pentassílabo (cinco sílabas), num ritmo ligeiro, dá a impressão do rufar dos tambores. As estrofes com exceção da primeira (sextilha), têm oito versos (oitavas), e as rimas seguem o esquema AAA (paralelas) e BCCB (opostas e intercaladas).

Canto 5 - Ao escutarem o canto de morte do guerreiro tupi, os timbiras entendem ser aquilo um ato de covardia e desse modo desqualificam-no para o sacrifício. Dando a impressão do conflito que se estabelece e refletindo o diálogo nervoso, entre o chefe Timbira e o índio Tupi, o poeta altera o decassílabo com versos mais ou menos livres. Não há preocupação nem com estrofes nem com rimas.

Canto 6 - O filho volta ao pai que ao pressentir o cheiro de tinta dos timbiras que é específica para o sacrifício desconfia do filho e ambos partem novamente para a tribo dos timbiras para sanarem ato tão vergonhoso para o povo tupi. Reproduzindo o diálogo entre pai e filho e também a decepção daquele, o poeta usa decassílabo juntamente com passagens mais ou menos livres. Não há preocupação com rimas ou estrofes.

Canto 7 - Sob alegação de que os tupis são fracos, o chefe dos timbiras não permite a consumação do ritual. Num ritmo constante, marcado pelo heptassílabo (sete sílabas), o poeta reproduz a fala segura do pai humilhado e do chefe Timbira. A estrofação e as rimas são livres.

Canto 8 - O pai envergonhado maldiz o suposto filho covarde. Para expressar a maldição proferida pelo velho pai, num ritmo bem marcado e seguro, o poeta usa o verso eneassílabo (nove sílabas), distribuindo-os em oitavas, com rimas alternadas e paralelas.

Canto 9 - Enraivecido o guerreiro tupi lança o seu grito de guerra e derrota a todos valentemente em nome de sua honra. Casando-se com o tom narrativo e a reação altiva do índio Tupi, o poeta usa novamente o decassílabo com estrofação e rimas livres.

Canto 10 - O velho Timbira ( narrador ) rende-se frente ao poder do tupi e diz a célebre frase: "meninos, eu vi". Alternando o hendecassílabo com pentassílabo, o poeta fecha o poema, de forma harmoniosa e ordenada, o que reflete o fim do conflito e a serenidade dos espíritos. Casando com essa ordem restabelecida, as estrofes vêm arrumadas em sextilhas e as rimas obedecem ao esquema AA (paralelas) e BCCB (opostas e intercaladas).

Enredo

O poema narra o drama de I-Juca Pirama (aquele que vai morrer), último descendente da tribo tupi, que é feito prisioneiro de uma tribo inimiga. Movido pela amor filial, pois o índio tupi era arrimo de seu pai, velho e cego, I-Juca Pirama, contrariando a ética do índio, implora ao chefe dos timbiras pela sua libertação. O chefe timbira a concede, não sem antes humilhar o prisioneiro: "Não queremos com carne vil enfraquecer os fortes." Solto, o prisioneiro reencontra-se com seu pai, que percebe que o filho havia sido aprisionado e libertado. Indignado, o velho exige que ambos se dirijam à tribo timbira, onde o pai amaldiçoa violentamente o jovem guerreiro que ferido em seus brios, põe-se sozinho a lutar com os timbiras. Convencido da coragem do tupi, o chefe inimigo pode-lhe que pare a luta, reconhecendo sua barvura. Pai e filho se abraçam - estava preservada a dignidade dos tupis.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Os Sertões - Euclides da Cunha


Os Sertões dá início ao que se chama de Pré-Modernismo na literatura brasileira, revelando, às vezes com crueldade e certo pessimismo, o contraste cultural nos dois "Brasis": o do sertão e o do litoral. Euclides da Cunha critica o nacionalismo exacerbado da população litorânea que, não enxergando a realidade daquela sociedade mestiça, produzida pelo deserto, agiu às cegas e ferozmente, cometendo um crime contra si própria; o que é o grande tema de Os Sertões. Em tom crítico, também mostra o que séculos de atraso e miséria, em uma região separada geográfica e temporalmente do resto do país, são capazes de produzir: um líder fanático e o delírio coletivo de uma população conformada.

Todos os importantes questionamentos e as grandes formulações sociológicas, antropológicas, históricas e políticas para compreender o Brasil, antes e depois da República, tiveram seu embrião nas páginas de Os Sertões.

A obra  revela, às vezes com crueldade e certo pessimismo, o contraste cultural nos dois "Brasis": o do sertão e o do litoral. A transição de valores tradicionais para modernos está na denúncia que faz da realidade brasileira, até então acostumada a retratar um Peri, uma Iracema, um gaúcho, ícones do nosso Romantismo. Evidencia, pela primeira vez em nossa literatura, os traços e condições reais do sertanejo, do jagunço; "a sub-raça" que habita o nordeste brasileiro; o herói determinista que resiste à tragédia de seu destino, disfarçando de resignação o desespero diante da fatalidade. Essa ruptura de visão de mundo gera também um rompimento no plano lingüístico. A objetividade científica na abordagem de um problema leva o autor a buscar termos precisos e, nesta escolha, sua linguagem torna-se especializada e, por isso, às vezes difícil, mas que se justifica pelo objetivo de tornar exata a comunicação das idéias.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Brás Bexiga e Barra Funda, de Alcântara Machado

 
Análise da obra

Alcântara Machado publicou Brás, Bexiga e Barra Funda, em 1927, sendo sua segunda publicação. A obra, da primeira fase do Modernismo, tem, ao invés de um prólogo, um artigo de fundo e o autor confessa que os contos não nasceram contos, mas sim notícias. Alcântara Machado busca fixar tão somente alguns aspectos da vida quotidiana dos novos mestiços nacionais e nacionalistas. Seu processo lingüístico é imitável, inimitável é o espírito, o estilo, animado por uma verve, uma graça e um humor absolutamente pessoais.

Estrutura

O livro é montado através de pequenos quadros sobre o cotidiano pobres de São Paulo, juntando episódios de rua, que o próprio autor intitulava de “notícias”. São 11 contos da mais bem-humorada prosa cubo-futurista, onde vai juntando quadros urbanos que ficam entre a crônica, a notícia e o conto leve.

É possível estabelecer uma aproximação entre Alcântara Machado e Lima Barreto pela atitude jornalística de ambos e pela preferência na retratação do proletariado — os filhos dos carcamanos, no primeiro, e o homem do subúrbio, no segundo.

Os contos mantêm uma característica fundamental do gênero que é a densidade. Todos são curtos e apresentam os elementos mínimos indispensáveis, sem alongar-se em qualquer descrição de cenário ou de personagem. Apresenta apenas os dados essenciais para que a narrativa possa ancorar no espaço desejado, valorizando o mapeamento da cidade, por isso, são freqüentes as citações de nome de ruas e de bairros.

Espaço / Tempo

O espaço é essencialmente urbano, com suas dificuldades e com a luta das pessoas para nele se adaptarem. Podemos dividi-lo em espaço interno, fechado, mostrando as pessoas em casa, no seu viver cotidiano, seja numa condição não muito comum, como o velório, seja na rotina diária, como uma refeição ou conversação informal.

O tempo é cronológico e alguns contos apresentam unidade de tempo, como: Lisetta, Corinthians (2) x. Palestra (1), O monstro de rodas, Armazém Progresso de São Paulo, desenvolvendo-se a ação num só dia. Outros contos, porém, já não apresentam essa unidade, com a ação alongando-se por mais de um dia, numa seqüência revelada de modo elíptico, muitas vezes representado simbolicamente pela duplicação do espaço em branco, que separa um parágrafo do outro, uma ação da outra, num corte cinematográfico. Exemplo disso são os contos: Gaetaninho, Carmela, Tiro-de-guerra 35, Amor e sangue, A sociedade, Nacionalidade.

Foco narrativo

Narrado em 3ª pessoa a modernidade se revela através do jogo de fragmentos, reunindo lances da vida urbana de imigrantes e paulistas tradicionais numa cidade em franco progresso. Entre os elementos mais destacadamente modernos do livro, está a sua forma narrativa, feita em blocos, que funcionam como cenas.

O principal processo narrativo em Brás, Bexiga e Barra Fundaé o diálogo — o diálogo ponto de vista da narrativa, o diálogo revelador de caracteres e o diálogo sugestão de ambientes, ou ainda o discurso indireto vivo, uma forma de dialogação polifônica.

No conto Gaetaninho, esses processos realizam-se através da libertação da construção tradicional da frase e do aproveitamento da vivacidade do coloquial, na visão do menino que brinca, é castigado, sonha com a morte da tia só para andar de carro e morre atropelado.

Linguagem

Quanto à linguagem  propriamente dita, ela é o elemento igualmente central do caráter moderno do livro. Uma das marcas de Brás, Bexiga e Barra Funda é a leveza conseguida por meio do discurso direto, predominante na obra. As personagens têm a oportunidade de falar diretamente por meio dos diálogos, exprimindo suas emoções, tristezas e esperanças com toda a carga expressiva e a coloquialidade que lhes é característica. Os diálogos propiciam também maior sensação de realismo e de proximidade entre personagens e leitor. A história ganha em dinamismo e, graças à sutil ironia de Alcântara Machado, em humor. Além do mais, a leitura dos 11 pequenos contos reunidos nesta obra faz que sintamos o processo de abrasileiramento do italiano.

Antônio de Alcântara Machado traz na linguagem uma marca muito própria dos modernistas da primeira geração: a recusa à linguagem empolada, retórica, cheia de volteios. Ao contrário sua linguagem é marcada pelo estilo telegráfico, conciso. As frases são na sua maioria formadas por orações coordenadas e curtas, garantindo sempre um mesmo ritmo ao texto:

Foi-se chegando devagarinho, devagarinho, devagarinho. Fazendo beicinho. Estudando o terreno. Diante da mãe e do Chinelo parou. Balançou o corpo. Recurso de campeão de futebol. Fingiu tomar a direita. Mas deu meia volta e varou pela esquerda porta adentro.

Personagens

Os personagens são “planos”, superficiais, não apresentam transformações surpreendentes durante a narrativa. As personagens são apresentadas de modo sumário e rápido, embora não seja uma caricatura, apesar do humor. Alguns são verdadeiros tipos como Carmela e Salvatore Melli, mas outros também apresentam uma base psicológica como Gaetaninho.

Na busca pela adaptação cultural e econômica, encontramos as costureirinhas curiosas pelo mundo do qual não fazem parte, mas conscientes de que devem continuar a fazer suas famílias na colônia, as crianças vítimas do preconceito, da pobreza e da injustiça que cerca o imigrante de classe mais baixa, os comerciantes gananciosos e suas famílias buscando uma posição social, os jovens trabalhadores e apaixonados, os quatrocentões paulistas, nobres e falidos, diante dos “carcamanos” endinheirados e “sem berço”.

Problemática e temas principais

Os temas mais recorrentes nos contos da obra em análise são:

1. A luta do Italiano pobre para conseguir seu dinheiro (Tiro-de-Guerra nº 35, Nacionalidade).

2. Ascensão social do italiano (Notas Biográficas do Novo Deputado, Nacionalidade).

3. Integração do italiano com o brasileiro (A Sociedade).

4. O despreparo da cidade e dos adultos com relação à criança que não tem um espaço adequado nem uma atenção necessária, quebrando a cara e a cabeça (Gaetaninho, O Monstro de Rodas).

5. Crítica social — Embora tenha avisado no “artigo de fundo” que não faria crítica ou denúncia social, podemos dizer que não é verdade, embora não o faça como narrador, mas coloca na boca das personagens várias pílulas críticas como em O Monstro de Rodas, quando alguém comenta: “Não conhece a podridão da nossa imprensa. Que o quê, meu nego. Filho de rico manda nesta terra que nem a Light. Pode matar sem medo. É ou não é, seu Zamponi?”

6. Obra datada — Sua obra fica prejudicada por determinadas técnicas que tornam a obra muito datada, dificultando para os leitores jovens de hoje a sua total apreensão. Algumas dessas técnicas são:

— emprego de gírias que já foram esquecidas (estava achando um suco = achava muito bom);

— nome de produtos que deixaram de ser fabricados (cláxon);

— o mapearmento da cidade de São Paulo (Rua do Gazômetro, Rua do Oriente);

7. Nomes de firmas ou de lojas que deixaram de existir (vestido do Camilo, Ao Chic Parisiense);

8. Referências a fatos ou acontecimentos que desapareceram da memória de quase todo mundo.

Enredo dos contos

1. Gaetaninho -
A narrativa é feita em terceira pessoa, com narrador onisciente e tem como espaço a Rua do Oriente. As personagens que a compõem são os italianinhos ou "intalianinhos"; a protagonista é Gaetaninho, maluco por futebol a ponto de ficar o dia inteiro jogando bola de meia na rua, com os amigos. Ficava tão concentrado que não vê o Ford, a carroça. Mas

"Grito materno sim: até filho surdo escuta. Virou o rosto tão feio de sardento, viu a mãe e viu o chinelo.

- Súbito!

Foi-se chegando devagarinho, devagarinho. Fazendo beicinho. Estudando o terreno. Diante da mãe e do chinelo parou. Balançou o corpo. Recurso de campeão de futebol. Fingiu tomar a direita. Mas deu meia volta instantânea e varou pela esquerda porta adentro.

Eta salame de mestre!"

Ali na rua do Oriente, todo mundo era pobre e todo mundo andava de bonde. De automóvel ou carro, só mesmo quando morria alguém ou alguém casava. Naquela tarde, por exemplo, Beppino tinha atravessado a cidade de carro, acompanhando tia Peronetta que se mudava para o Araçá (tia Peronetta havia morrido e esta é uma forma popular de dizer que ela fora enterrada no Araçá).

Gaetaninho driblou a mãe, entrou.

Enfiou a cabeça debaixo do travesseiro e sonhou que tia Filomena tinha morrido. Lá ia Gaetaninho na boléia, sonho antigo de menino, vestido de roupa marinheira e gorro onde se lia "Encouraçdo São Paulo"... não, melhor com a palhetinha nova que ganhara de presente do irmão.

Quando contou o sonho, e no sonho vira o Savério, noivo de tia Filomena, chorando, a tia teve uma taque de nervos, Gaetaninho , arrependido, colocou no lugar da tia o seu Rubino, que era acendedor da Companhia de Gás e que um dia tinha lhe dado um cocre.

Os irmãos, depois de contado o sonho com a tia Filomena, apostaram no elefante, mas deu a vaca no jogo do bicho...

Gaetaninho vai brincar outra vez com os amigos, jogando bola. Distraiu-se:

- Traga a bola!

Gaetaninho saiu correndo. Antes de alcançar a bola um bonde o pegou. Pegou e matou.

No bonde vinha o pai do Gaetaninho.

A gurizada assustada espalhou a notícia na noite.

- Sabe o Gaetaninho?

- Que é que tem?

- Amassou o bonde!

A vizinhança limpou com benzina suas roupas domingueiras.

Comentário: Neste conto pode-se notar no comportamento dos meninos uma demonstração de impiedade natural que tanto pode ser fruto da própria idade, quanto da vida urbana moderna. Percorre o texto um humor negro, resultado de uma ironia amarga.
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Alcântara Machado


Alcântara Machado – jornalista e
literário do Modernismo.
Antônio Castilho de Alcântara Machado d’Oliveira nasceu em 25 de maio de 1901, em São Paulo (SP). Nesta cidade, formou-se na faculdade de Direito, durante a qual publicou sua primeira crítica literária para o “Jornal do Comércio”. Após esse fato, passou a colaborar para este jornal até tornar-se redator-chefe.
Formou-se, mas não chegou a exercer a profissão porque estava atrelado à carreira jornalística.
Os movimentos modernistas na literatura começavam a se despontar com a “Semana de Arte Moderna”, da qual o escritor não participou. Contudo, depois de tornar-se amigo de Oswald de Andrade, adere ao movimento que o tornou um dos nomes mais significativos da prosa da Geração de 22.
Seu primeiro livro, “Pathé Baby” (com prefácio de Oswald de Andrade), é fruto do que escreveu para a imprensa em sua viagem à Europa, em 1925. Em 1928 publica "Brás, Bexiga e Barra Funda". Neste mesmo ano, já adepto da corrente modernista, Alcântara Machado participou da fundação das revistas de idéias modernistas: “Terra roxa e outras terras” e “Revista da Antropofagia”, além de colaborar com outras, como a “Revista Nova”. Paralelamente às atividades de jornalista, foi um cronista e contista notável.
Por volta de 1931, o escritor candidata-se ao cargo de deputado federal, pelo qual é eleito, mas não chega a tomar posse, pois falece aos 34 anos de idade e deixa seu único romance inacabado “Mana Maria” (1936).
O autor é conhecido por sua linguagem objetiva (provavelmente, advinda da jornalística), concisa e popular, características que davam dinamismo às suas narrativas.

Veja um trecho do livro “Brás, Bexiga e Barra Funda”:

Gaetaninho

— Xi, Gaetaninho, como é bom!
Gaetaninho ficou banzando bem no meio da rua. O Ford quase derrubou e ele não viu o Ford. O carroceiro disse um palavrão
e ele não ouviu o palavrão.
— Eh! Gaetaninho! Vem pra dentro.
Grito materno sim: até filho surdo escuta. Virou o rosto tão feio de sardento, viu a mãe e viu o chinelo.
— Súbito!
Foi-se chegando devagarinho, devagarinho. Fazendo beicinho. Estudando o terreno. Diante da mãe e do chinelo parou.
Balançou o corpo. Recurso de campeão de futebol. Fingiu tomar a direita. Mas deu meia volta instantânea e varou pela
esquerda porta adentro.
Eta salame de mestre!
Ali na Rua Oriente a ralé quando muito andava de bonde. De automóvel ou carro só mesmo em dia de enterro. De enterro ou de
casamento. Por isso mesmo o sonho de Gaetaninho era de realização muito difícil. Um sonho.
O Beppino por exemplo. O Beppino naquela tarde atravessara de carro a cidade. Mas como? Atrás da tia Peronetta que se
mudava para o Araça. Assim também não era vantagem.
Mas se era o único meio? Paciência.

(...)

Alcântara Machado faleceu aos 14 de abril de 1935, após uma semana da realização de cirurgia para apendicite.
Em 1961, todos os contos e o romance que ficou inacabado foram reunidos em um único volume, com o título de “Novelas Paulistanas”.

Obras: Romance: Mana Maria (1936) – inacabado.
Conto: Brás, Bexiga e Barra Funda (1927): Laranja da China (1928).
Crônica: Pathé Baby (1926); Cavaquinho e saxofone (1940).

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Cinco Minutos

  

Cinco Minutos faz parte da fase urbana do escritor. Contado sob a forma de uma carta do jovem à sua prima, este livro é um exemplo clássico do Romantismo ao mostrar um amor puro, casto, duradouro e curativo, sentido por duas almas gêmeas perfeitas, com o destino interpondo-se no caminho e resolvendo-se no final. Cinco Minutos conta a história do casamento do autor com Carlota. No entanto, para o leitor, parece que está escutando uma história que não é para ele, já que Alencar dirige seu texto a uma prima. O leitor aqui é uma terceira pessoa, um "voyer" que fica entre José de Alencar e sua prima. Ao mesmo tempo em que tenta levar o leitor a pensar que tudo é imaginário e faz parte das fantasias do autor, José de Alencar faz questão de narrar fatos verídicos da época, acontecimentos reais que marcaram o Rio de Janeiro no início do século. É tão minucioso nesse aspecto que até narra datas e horários etc. 

A obra fala sobre a vida burguesa. Suas personagens são personagens que, no fundo, representam o ideal acabado da vida burguesa, tropicalmente reproduzida na Corte brasileira. O narrador-personagem está disponível, da primeira à última página, para satisfazer a todos os caprichos de sua imaginação. Sem compromisso profissional algum, o aspecto financeiro de suas peregrinações atrás de Carlota não chegam jamais a preocupá-lo.

Enredo

Cinco minutos foi o tempo que o rapaz se atrasou; quando tomou o ônibus atrasado, conheceu uma estranha e se apaixonou. Após muito procurar pela voz misteriosa (não conseguiu ver seu rosto), conseguiu apenas a resposta de que não poderiam se juntar pela própria moça. Ela viaja, ele a segue, eles se encontram, se declaram e ele parte para achar uma carta dela. 

Senhora



Enquanto romance urbano, anterior ao advento do Realismo em nossa literatura, "Senhora" é fundamentalmente uma crônica de costumes, um retrato da Corte ou da sociedade fluminense na segunda metade do século 19. Ou seja, o texto focaliza a época em que o próprio escritor viveu. Nesse sentido, é muito apropriado o comentário do crítico Alfredo Bosi sobre os romances urbanos do autor:

"Alencar, cioso da própria liberdade, navega feliz nas águas do remoto e do longínquo. É sempre com menoscabo ou surda irritação que olha o presente, o progresso, 'a vida em sociedade'; e quando se detém no juízo da civilização, é para deplorar a pouquidade das relações cortesãs, sujeitas ao Moloc do dinheiro. Daí o mordente de suas melhores páginas dedicadas aos costumes burgueses em 'Senhora' e 'Lucíola'".

Em outras palavras, Alencar critica a sociedade que lhe é contemporânea, não a partir da perspectiva de uma transformação futura, mas na da nostalgia de um passado que só na ficção pode reviver plenamente. De qualquer modo, é em "Senhora" e "Lucíola" que atinge o ponto alto em termos de crítica social e procura se aprofundar na psicologia das personagens femininas, traçando o que se convencionou chamar de seus "perfis de mulher".

De qualquer modo, publicado em 1875, "Senhora" traz características inequivocamente românticas, como se pode ver pelo núcleo de seu enredo, simples, atrelado aos esquematismos dos dramas de amor do Romantismo: Aurélia Camargo, filha de uma pobre costureira, apaixonou-se por Fernando Seixas, a quem namorou. Este, porém, desfez a relação, movido pela vontade se casar com uma moça rica, Adelaide Amaral.

Passado algum tempo, Aurélia, já órfã, recebe uma grande herança do avô e ascende na escala social. Ainda ressentida com o antigo namorado, resolve vingar-se dele. Sabendo que Fernando, ainda solteiro, andava em dificuldades financeiras, resolve comprá-lo para marido. Na época, o Segundo Reinado, vigora o regime de casamento dotal, em que o pai da noiva (ou, no caso, ela mesma) deveria dar um dote ao futuro marido.

Assim, através de um procurador, Fernando recebe uma proposta de casamento e a aceita sem saber exatamente com quem se casará - interessa-lhe apenas o dinheiro, cem contos de réis, que vai receber por isso. Ao descobrir que sua noiva é Aurélia, Fernando se sente um felizardo, pois, na verdade, nunca deixara de amá-la. E abre seu coração para ela. 

Romance Urbano


romantismo urbano, também conhecido como romance de costumes ficou marcado por tentar retratar e criticar os costumes da sociedade carioca em 1830 do século XIX. Teve como primeira obra O filho do pescador, de 1843, Teixeira e Souza, no entanto, seu valor é apenas histórico, a obra de maior valor dessa tendência romântica foi A moreninha de Joaquim Manuel de Macedo. Outro autor de destaque foi José de Alencar com os romances Senhora, Lucíola e Diva, e Memórias de um Sargento de Milícias. Os romances urbanos criam um público leitor ávido e fiel. O romance urbano também conhecido como romance de costumes tem como principal característica a preocupação na ilustração de paixões, comportamento e interesses da classe social da época em foco. Os romances urbanos se caracterizam também pela presença do herói e da heroína, que apaixonados precisam quase sempre superar obstáculos para viverem felizes. Outra principal característica é que trouxeram uma nova forma de entretenimento a leitura de romances estrangeiros.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Semana da Arte Moderna

A Semana de Arte Moderna, também chamada de Semana de 22, ocorreu em São Paulo no ano de 1922, nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro, no Teatro Municipal.
Cada dia da semana foi dedicado a um tema: respectivamente, pintura e escultura, poesia, literatura e música.
A Semana de Arte Moderna representou uma verdadeira renovação de linguagem, na busca de experimentação, na liberdade criadora da ruptura com o passado e até corporal, pois a arte passou então da vanguarda, para o modernismo. O evento marcou época ao apresentar novas ideias e conceitos artísticos, como a poesia através da declamação, que antes era só escrita; a música por meio de concertos, que antes só havia cantores sem acompanhamento de orquestras sinfônicas; e a arte plástica exibida em telas, esculturas e maquetes de arquitetura, com desenhos arrojados e modernos. O adjetivo "novo" passou a ser marcado em todas estas manifestações que propunha algo no mínimo curioso e de interesse.
 
Vale ressaltar, que a Semana em si não teve grande importância em sua época, foi com o tempo que ganhou valor histórico ao projetar-se ideologicamente ao longo do século. Devido à falta de um ideário comum a todos os seus participantes, ela desdobrou-se em diversos movimentos diferentes, todos eles declarando levar adiante a sua herança.
Ainda assim, nota-se até as últimas décadas do Século XX a influência da Semana de 1922, principalmente no Tropicalismo e na geração da Lira Paulistana nos anos 70 (Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, entre outros). O próprio nome Lira Paulistana é tirado de uma obra de Mário de Andrade.
Mesmo a Bossa Nova deve muito à turma modernista, pela sua lição peculiar de "antropofagia", traduzindo a influência da música popular norte-americana à linguagem brasileira do samba e do baião.
Entre os movimentos que surgiram na década de 1920, destacam-se:

terça-feira, 9 de abril de 2013

O Ultra-romantismo




A segunda geração baseou-se em uma arte totalmente voltada para o desapego a este nacionalismo e “mergulhou” em um exacerbado sentimentalismo e pessimismo doentio como forma de escapar da realidade e dos problemas que assolavam a sociedade na época.
E para falarmos mais especificamente sobre a segunda geração, é de fundamental importância sabermos que os autores nela consagrados sofreram influências do poeta inglês Lord Byron, autor de uma criação poética agressiva contra a sociedade e que a figura do poeta confundia-se com a de seus heróis – melancólicos - misteriosos e sombrios.
 Lorde Byron

Também conhecida como Mal do século, a segunda geração romântica foi caracterizada pelo extremo subjetivismo, onde o culto ao “eu” revelava um extremo egocentrismo que culminava com o sentimento de morte, dúvida e obscuridade.
As principais figuras artísticas que se destacaram neste período foram: Álvares de Azevedo, Junqueira Freire, Casimiro de Abreu e Fagundes Varela. 

Todos estes poetas não conseguiram atingir a plenitude de sua juventude, pois morreram precocemente atingidos pelas patologias advindas do modo de vida que levavam. Devido ao pessimismo já mencionado anteriormente, eles preferiam os lugares escuros, sombrios, úmidos para se estabelecerem, e ainda eram boêmios noturnos assíduos e tinham a bebida como foco principal, uma vez que esta funcionava com válvula de escape para os mesmos.

A temática pregada por eles baseava-se no sonho, no devaneio, o amor era aquele platônico, a mulher era vista como uma figura inatingível, impalpável, vista mais no plano espiritual do que no material.

Vejamos agora uma poesia de Álvares de Azevedo:

Soneto (Álvares de Azevedo)

Pálida, à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!
Era a virgem do mar! Na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d'alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!
Era mais bela! O seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...
Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti - as noites eu velei chorando,
Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo! 



Aqui podemos perceber a figura da mulher vista como algo intocável, desejada somente em sonho e jamais conquistada, pois predomina o sentimento de evasão, de falta de autenticidade.


Essa temática está bem presente na literatura e no cinema atual:


terça-feira, 19 de março de 2013

sábado, 22 de setembro de 2012

Novela Lado a lado



A trama fala sobre o começo da república, o surgimento do samba, a chegada do futebol no Brasil, o fim dos cortiços, o início das favelas cariocas no início do século XX, e trazer como tema principal o nascimento da mulher moderna na sociedade brasileira. As cenas iniciais foram gravadas em São Luís do Maranhão.
Essa novela mostra bem o contexto histórico do Realismo, Naturalismo da literatura brasileira       é uma verdadeira obra de arte que nos apresenta o social, político e cultural do nosso país no início da República.
 Os dois lados da sociedade brasileira: o povo e a elite.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Naturalismo



Naturalismo mostra o homem como produto de forças “naturais”, desenvolve temas voltados para a análise do comportamento patológico do homem, de suas taras sexuais, de seu lado animalesco.

Os naturalistas acreditavam que o indivíduo é mero produto da hereditariedade e seu comportamento é fruto do meio em que vive e sobre o qual age.
A perspectiva evolucionista de Charles Darwin inspirava os naturalistas, esses acreditavam ser a seleção natural que impulsionava a transformação das espécies.
Assim, predomina nesse tipo de romance o instinto, o fisiológico e o natural, retratando a agressividade, a violência, o erotismo como elementos que compõem a personalidade humana.
Os autores naturalistas criavam narradores oniscientes, impassíveis para dar apoio à teoria na qual acreditavam. Exploravam temas como o homossexualismo, o incesto, o desequilíbrio que leva à loucura, criando personagens que eram dominados por seus instintos e desejos, pois viam no comportamento do ser humano traços de sua natureza animal.

No Brasil, a prosa naturalista foi influenciada por Eça de Queirós com as obras O crime do padre Amaro e O primo Basílio, publicadas na década de 1870. Aluísio de Azevedo com a obra O mulato, publicada em 1881, marcou o início do Naturalismo brasileiro, a obra O cortiço, também de sua autoria, marcou essa tendência.

Em O cortiço a face completa do Naturalismo pode ser vista, nessa obra o indivíduo é envolvido pelo meio, o cenário é promíscuo e insalubre e retrata o cruzamento das raças, a explosão da sexualidade, a violência e a exploração do homem.

Além de Aluízio de Azevedo e Eça de Queirós, existem outros escritores que se destacaram como Júlio Ribeiro com o romance A carne (1888); Adolfo Caminha com A normalista (1893) e O bom-crioulo; Raul Pompéia com O Ateneu (1888).

sábado, 4 de agosto de 2012

Realismo



CONTEXTO HISTÓRICO
- Surgiu a partir da segunda metade do século XIX.
- As idéias do Liberalismo e Democracia ganham mais espaço.
- As ciências evoluem e os métodos de experimentação e observação da realidade passam a ser vistos como os únicos capazes de explicar o mundo físico.
- Em 1870, iniciam-se os primeiros sintomas da agitação cultural, sobretudo nas academias de Recife, SP, Bahia e RJ, devido aos seus contatos freqüentes com as grandes cidades européias.
- Houve também uma transformação no aspecto social com o surgimento da população urbana, a desigualdade econômica e o aparecimento do proletariado.
O Realismo iniciou-se na França, em 1857, com a publicação de “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert.
No Brasil foi em 1881, com “Memórias Póstumas da Brás Cubas” de Machado de Assis e “O Mulato” de Aluísio Azevedo.

CARACTERÍSTICAS DO REALISMO
- Oposição ao idealismo romântico. Não há envolvimento sentimental
- Representação mais fiel da realidade
- Romance como meio de combate e crítica às instituições sociais decadentes, como o casamento, por exemplo
- Análise dos valores burgueses com visão crítica denunciando a hipocrisia e corrupção da classe
- Influência dos métodos experimentais
Narrativa minuciosa (com muitos detalhes)
- Personagens analisadas psicologicamente

AUTORES PRINCIPAIS

É considerado o maior escritor do século XIX, escreveu romances e contos, mas também aventurou-se pelo mundo da poesia, teatro, crônica e critica literária.
Nasceu no Rio de Janeiro em 1839 e morreu em 1908. Foi tipógrafo e revisor tornando-se colaborador da imprensa da época.
Sua infância foi muito pobre e a sua ascensão artística se deve a muito trabalho e dedicação. Sua esposa, Carolina Xavier, o incentivou muito na carreira literária, tanto que foi o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras.
Como romancista escreveu: ”A mão e a luva”, “Ressurreição”, ”Helena” e “Iaiá Garcia”.
Embora sejam romances, essas obras também revelam algumas características que futuramente marcarão a fase realista e madura do autor, como a análise psicológica dos personagens, o humor, monólogos interiores e cortes na narrativa (uma das suas principais características).
“Memórias Póstumas da Brás Cubas” (considerado o divisor de águas na obra machadiana) “Quincas Borba”, “Dom Casmurro”, “Esaú e Jacó” e “Memorial de Aires”, revelam o interesse cada vez maior do autor de aprofundar a análise do comportamento do homem, revelando algumas características próprias do ser-humano como a inveja, a luxúria, o egoísmo e a vaidade, todas encobertas por uma aparência boa e honesta.
Como contista Machado escreveu: ”A Cartomante”,”O Alienista”,”O Enfermeiro”,”O Espelho” dentre outros.
Como cronista escreveu, entre 1892 e 1897, para a Gazeta de Notícias, sob o título “A Semana”.
Embora suas peças teatrais não tenham o mesmo nível que seus contos e romances, ele nos deixou “Quase ministro” e “Os deuses da casaca”.
Como crítico literário, além de vários prefácios e ensaios destacam-se 3 estudos: ”Instinto de nacionalidade”,”A nova geração” e “O primo Basílio” (a respeito do romance de mesmo nome de Eça de Queirós).

Outros Autores
Raul Pompéia: “O Ateneu”
Aluísio Azevedo: “O cortiço”,”O Mulato”, “Casa de pensão”
Inglês de Souza: “O missionário”
Adolfo Caminha: “A normalista”, “Bom-Crioulo”
Domingos Olímpio: ”Luzia-Homem”